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15
dez-2015

A matéria pode ser lida no portal UOL TAB ou a seguir:

As palmas das mãos e as unhas de Sarah Borba, 17, ainda estavam encardidas na manhã do dia 3 de dezembro quando ela e seus colegas receberam o TAB. “Ficou assim depois que nós limpamos todas as pichações das carteiras”, explicou, mostrando a sala de aula tinindo graças à faxina.

Além de zelarem pela Escola Estadual Virgília Rodrigues Alves de Carvalho Pinto, no Jardim Previdência, em São Paulo (SP), Sarah e sua turma alteraram toda a lógica do aprendizado ali. Contra o projeto do governador Geraldo Alckmin de reorganizar dos ciclos de ensino, os estudantes trancaram os portões e interromperam as aulas do cronograma formal. Depois das manifestações de rua, com direito à truculenta ação da Polícia Militar, a decisão foi adiada.

As críticas dos alunos, porém, continuam com força e vão muito além do combate à reorganização. “Recebemos um conhecimento muito sistemático, seguimos o currículo imposto e não temos espaço para debates nem manifestações culturais”, diz Amanda Araújo, 16. Auto-organizados em comissões de “segurança”, “limpeza”, “comunicação”, entre outras, desde o dia 24 de novembro, quando a escola foi ocupada, os estudantes têm recebido diariamente voluntários que dão aulas sobre feminismo, teatro, terrorismo, comunicação não-violenta, drogas, música e por aí vai – temas estes que, apesar de fazerem parte do mundo real, ficam à margem do ensino padrão .

“O que estamos vivendo agora é um exemplo da escola que eu queria para mim”, afirma Raquel Valentim Person Neves, 16, que está no segundo ano do Ensino Médio. “Finalmente eu estou aprendendo de verdade”. Para ela, a escola ideal é um ambiente acolhedor, onde o conteúdo previsto no currículo é estudado levando em consideração os interesses dos alunos e os fatos atuais. Parece um sonho, mas é por ele que os secundaristas do Estado de São Paulo estão literalmente dando a cara a tapa nas ruas da capital.

Este é apenas o sintoma mais visível e urgente de uma crise no sistema educacional brasileiro que se arrasta há anos. Tanto na rede pública quanto na privada, estudantes demonstram um desinteresse progressivo pelo conteúdo aprendido em sala de aula. Ao mesmo tempo, os professores se perguntam diariamente o que é preciso fazer para encantar os estudantes e motivá-los a aprender. “O atual modelo de ensino é insustentável”, afirma a educadora Renata Meirelles, autora do projeto Território do Brincar.

Para realizar o trabalho, durante os anos de 2012 e 2013, ela viajou com o marido e os dois filhos pequenos por diversas regiões do Brasil, registrando as brincadeiras de crianças de comunidades remotas e de áreas metropolitanas. Voltou da expedição com documentários, livros, séries para televisão e uma certeza: “A melhor sala de aula é o mundo”. Por isso, no próximo ano, embarca com a família para mais uma jornada, desta vez fora do Brasil. Seus filhos, agora com 6 e 8 anos, vão junto e passarão a maior parte do ano fora da escola. “Estou convicta de que aprenderão muito mais assim”, diz.

Uma nova dinâmica

Embora seja antiga, agravou-se recentemente a iminente falência do sistema educacional baseado na lógica de que o aluno é um mero coadjuvante do processo de aprendizado, um copo vazio que precisa ser preenchido com o conhecimento do professor. Quando quase todo e qualquer conteúdo está literalmente na palma da mão de qualquer criança, é preciso repensar o papel da escola, do professor e de todos os mecanismos de aprendizado. “A sala de aula tradicional, com um professor na frente e alunos organizados em fileiras já teve o seu tempo”, conclui o relatório sobre educação publicado recentemente pela Unidade de Inteligência da revista britânica “The Economist” e patrocinado pelo Google.

O documento foi produzido com base em séries de entrevistas e pesquisas com alunos, professores e empresários de 25 países, incluindo o Brasil. Segundo ele, mais do que fornecer informações, a escola do futuro precisa dar ao aluno a oportunidade para debater ideias, fazer seus próprios experimentos e adquirir as chamadas habilidades do século 21, como solução de problemas, trabalho em equipe e capacidade de se comunicar. Exatamente o que reivindicam os alunos das ocupações. “A escola tinha que ser um espaço mais aberto e democrático, onde o professor explica, mas todos têm o direito e a liberdade de expor aquilo que pensam sobre determinado assunto”, diz a estudante do Ensino Médio Amanda Araújo.

Já que é impossível levar toda e qualquer criança para explorar o mundo numa viagem real, a saída é trazer o máximo de experiências para dentro da sala de aula. Está em fase de demonstração em escolas públicas e privadas do Brasil o Google Expeditions. Tratam-se de óculos de papelão, cujo molde está disponível gratuitamente na internet e que, acoplados a um celular com aplicativo específico, mostram imagens de diversos lugares.

Com ele, dá para fazer um tour em 360 graus por uma floresta do Congo ou mergulhar no mar do Caribe. Assim, o aluno tem um aperitivo do que seria estar verdadeiramente naquele ambiente. Por meio de um tablet, o professor seleciona os pontos para onde gostaria de “levar” a turma e, sinalizando com uma seta, conduz os olhares da meninada. O programa também contém informações didáticas para amparar o educador.

Uma das instituições onde a ferramenta está em teste é o Colégio Internacional Emece, que nos últimos anos tem se empenhado bastante em trazer a vida real para a sala de aula. Lá, a linguagem de programação e a robótica foram incluídas na grade curricular. Além disso, os professores usam ferramentas online para compartilhamento de arquivos, o que lhes permite coordenar projetos em grupo. Outra: o Wi-Fi é liberado. “Não adianta proibir. Em questão de horas, os alunos descobrem a senha. O melhor é liberar e orientar para que os dispositivos eletrônicos sejam usados para facilitar o aprendizado”, diz Sônia Almeida de Sá, professora de Linguagem de Programação do Emece.

Dar essa liberdade e, em alguns casos, o poder aos alunos pode resultar na solução de problemas da escola, como ocorreu no Centro de Educação Nery Lacerda, em Sobradinho (DF). Lá, as crianças apresentavam muita dificuldade de compreender o conteúdo ensinado em História. A disciplina tinha o segundo índice mais alto de reprovação do colégio. Toda hora os professores eram obrigados a confiscar algum celular, que funcionava como um motivo para dispersar a atenção dos estudantes durante a aula.

Foi então que os garotos tiveram uma ideia: recorrer ao game Minecraft, que permite usar blocos para construir ambientes e objetos, para estudar o conteúdo previsto pelo professor. Mesmo sem conhecer o jogo, os educadores toparam. Parte do tempo foi destinado a aula tradicional e outra, ao jogo. Os alunos construíram a Roma Antiga e simularam engenhos de cana de açúcar do século 16. Com isso, o índice de estudantes em recuperação chegou a quase zero. Mas não parou por aí: no início de dezembro, esse projeto venceu o prêmio Criativos na Escola, do Instituto Alana.

O novo professor

Modernizar a sala de aula, porém, é só um primeiro passo para construir a escola do futuro. “Substituir a lousa e o giz por uma tela ou as figuras de livro por realidade virtual não é a solução para o ensino”, afirma Nelson Pretto, professor da Faculdade de Educação, da Universidade Federal da Bahia. “O mais urgente é rever o papel do professor e fortalecer a sua importância.”

A jornalista americana Amanda Ripley visitou e pesquisou três dos países considerados superpotências da educação: Coreia do Sul, Polônia e Finlândia. Em seu livro “As Crianças Mais Inteligentes do Mundo”, ela descreve os detalhes e as diferenças no ensino em cada um deles e aponta uma característica que todos têm em comum: os professores são valorizados, bem remunerados e estão em constante atualização.

Na escola do futuro, portanto, o educador é uma figura admirada pelos estudantes, um líder natural capaz de inquietar os jovens e estimulá-los a se interessar pelo conteúdo das aulas. Ele divide (não domina) o protagonismo no processo de aprendizagem com os alunos. Nada a ver com a postura autoritária dos professores de antigamente ou com a figura desprestigiada e oprimida que tenta conduzir a maioria das turmas hoje em dia.

“Precisamos de professores que sejam capazes de orientar a pesquisa, indicar boas fontes e ensinar a fazer perguntas, não a fornecer respostas prontas”, afirma Helena Singer, assessora especial do Ministério da Educação. Ela é responsável pelo projeto Inovação e Criatividade na Educação Básica, que pretende identificar iniciativas inovadoras em escolas do Brasil.

A hora dos projetos

Aulas expositivas, em que os alunos permanecem silenciosos, ouvindo a explicação do conteúdo, à espera do momento em que estarão liberadas as perguntas perdem o sentido. Em vez disso, na escola do futuro, o aluno terá liberdade para estudar o conteúdo indicado pelo professor onde e como achar mais conveniente. O espaço de sala será utilizado, então, para debater os temas pesquisados e produzir grandes projetos relacionados a eles. E o estudo será norteado pelos interesses do grupo.

Na prática, funciona mais ou menos assim: em conjunto, a turma decide que construirá o miniprotótipo de um carro movido a energia solar, por exemplo. E, aos poucos, realiza pesquisas em fontes variadas para colocar o plano em prática. O processo todo requer o acesso a temas de diversas disciplinas. Por isso, há quem aposte que o ensino não será mais dividido em tantas matérias.

A Finlândia, por exemplo, anunciou há poucos meses uma reforma educacional. A partir do próximo ano letivo, todas as escolas de nível fundamental terão de incluir no mínimo dois projetos multidisciplinares em seu currículo. Trata-se de uma medida para motivar os alunos e atender às mudanças do mercado de trabalho. “O sistema antigo foi desenhado para as necessidades da era industrial”, disse a secretária de Educação da capital, Helsinque, Marjo Kyllönen, à época em que as novidades foram divulgadas.

Nesse novo cenário, a escola torna-se um espaço não apenas de consumo, mas também de produção de conteúdo. “Ela passa a ser o ambiente para fazer o conhecimento circular”, diz o educador Marcelo Bueno, diretor da Estilo de Aprender, em São Paulo. Em vez de ensinar tendo como objetivo principal a vida adulta, a formação acadêmica ou a preparação para a carreira profissional, ela serve de terreno para experimentos do presente. E, por que não, para solucionar problemas atuais? É o que faz a Technovation, um evento internacional que desafia meninas de dez a 18 anos a criarem aplicativos para resolver dificuldades da comunidade onde vivem.

Na última edição, as vencedoras da etapa nacional foram cinco garotas do Ensino Fundamental, moradoras de uma favela no Real Parque, na zona sul paulistana. Incomodadas com o lixo nas ruas da vizinhança, elas tentaram entender por que a sujeira se espalhava. Em seguida, criaram um aplicativo que avisa os moradores sobre o horário em que o caminhão de coleta passa. O sucesso do programa virou um minidocumentário.

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