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16
dez-2015

Livro registra o brincar de crianças da cultura Xhosa, na África do Sul.

Por meio de seus registros, Renata Meirelles e David Reeks, coordenadores do Território do Brincar, nos mostram as sutilezas e a espontaneidade da criança em seu momento mais potente e genuíno: o brincar livre.

Assim como eles, existem diversas pessoas que trabalham na busca por fortalecer esse olhar cuidadoso para a infância. Uma delas é a educadora Sandra Eckschmidt, coordenadora da Escola De Educação Infantil Casa Amarela e da Formação em Pedagogia Waldorf de Florianópolis.

Sandra, que também integra o Conselho Inspirador do Território do Brincar, atua nas áreas da infância e do brincar e, neste ano, decidiu realizar um sonho: partiu para outro continente, a fim de observar e registrar o brincar da criança dentro escola, num contexto que não o brasileiro.

capa-livro

Para adquirir o livro, clique na imagem.

Entre janeiro e junho de 2015, ela realizou uma imersão na comunidade Khayelitsha, localizada a 30km de Capetown, na África do Sul, e afirma que a experiência renovou seu olhar como educadora: “Não compreender a língua local (o Isixhosa) foi um presente. Isso me propiciou tempo e abertura para observar o brincar das crianças sem pré-julgamentos; foi uma mudança de paradigma dentro de mim”.

Desta experiência nasceu o livro Ndiphilile: estou viva!”, um registro autoral, em que Sandra descreve as descobertas, as riquezas e as dificuldades dos meses em que mergulhou em uma nova cultura, marcada pela história sofrida do Apartheid, mas, sobretudo, por uma alegria contagiante, que foi revelada, principalmente, pelo brincar das crianças desta comunidade.

Sandra, que é Coordenadora de uma escola Waldorf em Florianópolis, foi recebida pela Escola Zenzeleni, que também segue a pedagogia de Rudolf Steiner, e lá desenvolveu seu estudo, acompanhando, durante 6 meses, o dia a dia daquela comunidade escolar, atenta à tudo o que as crianças tinham a lhe dizer, principalmente por meio do corpo, da cadência da fala, do encanto do olhar. Neste processo, ela descobriu coisas lindas e extremamente relevantes a todos aqueles que se propõe a olhar para a criança de forma atenta e cuidadosa.

Batemos um papo com ela, que nos contou brevemente sobre a experiência. Para conhecer a fundo a pesquisa desenvolvida, sugerimos a leitura do livro, que pode ser adquirido aqui.

[Território do Brincar] Como surgiu a ideia de realizar essa viagem?

Sandra Eckschmidt – Existe uma resposta racional: a minha intenção, profissional, de olhar a criança dentro da escola, fora do contexto brasileiro. Como é essa criança? Eu já havia passado por essa experiência, no início da minha carreira, mas agora o foco da observação estava no brincar dentro do contexto escolar. Nesse sentido, a Escola Zenzeleni contribuiu muito para minha pesquisa, por ser uma escola que, em sua proposta pedagógica, defende e oferece espaço para o brincar livre; ali, os educadores deixam o brincar acontecer no início ao fim, sem interrupções.

[Território do Brincar] E por que a África do Sul?

Sandra – Desde criança, eu sempre tive um sonho: o de ir para a África. Ao conhecer a Escola Zenzeleni, na Comunidade Khayelitsha, que nasceu durante o regime separatista do apartheid, tive certeza que era o lugar em que gostaria de estar. Vi um contexto muito forte, com questões que afligem qualquer favela: violência, doenças, drogas e o agravante do apartheid, que amplifica a questão racial. Mas quis olhar além, para a pluralidade e potências desse povo.

[Território do Brincar] Como foi a experiência de olhar para uma cultura tão diferente da sua a partir dos gestos das crianças? O que elas te contaram?

Sandra – Tudo o que eu aprendi sobre a cultura local foi por meio do brincar das crianças. Meninos e meninas brincam separados. A menina é falante, o menino, mais reservado; brinca para dentro, com coisas pequenininhas. Depois confirmei que se tratava de uma cultura fortemente matriarcal. É incrível como no brincar livre (apenas no brincar livre!) as crianças nos contam tantas coisas sobre as suas realidades.

[Território do Brincar] E a língua foi um empecilho? (Khayelitsha é uma comunidade de cultura Xhosa, cuja língua materna é o Isixhosa, marcada pelos estalos, que imitam sons da natureza).

Sandra – Não compreender a língua local enriqueceu o meu olhar. O entendimento sobre as brincadeiras veio por meio de uma observação diária e atenta aos gestos e expressões desses meninos e meninas; isso me tirou de um lugar de comodidade como educadora. Abriu o meu olhar. Acompanhei as narrativas por meio dos gestos e assim as crianças, a cada dia, me apresentavam um pouquinho mais da sua cultura.

[Território do Brincar] Qual o significado do nome escolhido para o livro?

Sandra – Um dia, um jardineiro da Escola Zenzeleni se sentou comigo e explicou o significado de algumas palavras do idioma Isixhosa, que me acompanhavam todos os dias: molo significa olá!; unjani, como vai; Ndiphilile, tudo bem! Muito feliz, eu repetia a palavra e o significado para que ele me corrigisse. Escutando-me, explicou: ndiphilile não significa só tudo bem, é mais do que isso. Significa estou vivo, é celebrar que estou vivo – tudo bem, no sentido da vida! Eu achei tão bonita a explicação! O significado de “ndiphilile” deu sentido à minha experiência.

[Território do Brincar] A quem se destina o livro?

Sandra – O livro traz um tema específico: o brincar livre das crianças no contexto escolar. Mas também traz uma leitura da cultura Xhosa, a partir das crianças.  É uma escuta das crianças. Eu diria que se destina a todos que tenham interesse pela infância e pelos encantos dessa cultura tão originária da África, que se mantém viva, em meio a uma cidade moderníssima, como Capetown.

Por Carolina Prestes / Território do Brincar

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