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17
fev-2021

Episódio 6: Janelas e Telas – Podcast Brincar em Casa

Na sequência você confere a transcrição completa do sexto episódio do podcast Brincar em Casa, criado e desenvolvido pelo Território do Brincar, com patrocínio do Instituto Alana.

Para ouvi-lo acesse alguma das plataformas de áudio abaixo:

Os episódios também estão disponíveis no Youtube com recursos de acessibilidade – legendas descritivas em português e Libras.

As janelas convidam para olhar, deixam o sol entrar, deixam ver as ruas, os prédios, os carros e até uma árvore que acolhe um passarinho que todo dia com seu canto, nos convida para ver lá fora.

Quando abrimos as janelas pela manhã, percebemos a brisa que entra, trazendo seu frescor, ouvimos o burburinho de quem passa, e sentimos o cheiro da cozinha dos vizinhos, e das saudades do encontro com o outro.

“E aí, durante essa quarentena… O apartamento que a gente mora… na sala tem uma parede que é janela de fora a fora. E são janelas grandes então dá para ver muito a cidade. É uma vista muito bonita. E o sol se põe bem aqui nessa janela, então a gente passou a fazer assim, quando vai dando 17.30h a gente apaga as luzes da casa e coloca a cadeira de frente para esse janelão. A gente senta do lado dela e aí a gente não fala nada. A gente tem esse combinado de fazer silêncio e assistir o por sol de mão dada com ela, mas em silêncio. E aí o que aconteceu? Ela não chora mais. Acabou o chorinho nesse horário.”

Este chorinho, antes frequente a cada crepúsculo, era de uma menina de sete anos, divertida, curiosa e que, a depender da música, tem todo um rebolado especial que faz com a sua cadeira de rodas. Foram relatos tão sensíveis como este que nos chamaram a atenção para essa qualidade das janelas de demarcar, tão concretamente, o dentro e o fora.

E como será que durante o isolamento social as crianças viveram a relação entre o mundo em casa e o que estava para além das suas janelas?

Uma coisa ficou evidente, as janelas mais comentadas e discutidas pelas famílias, nesse período, foram as janelas-telas.

Estamos começando um episódio de “Brincar em Casa”, uma série de podcasts do Território do Brincar, feitos a partir de uma pesquisa com 55 famílias em 18 países, vivendo os mais diversos contextos. Nas entrevistas, buscamos saber como as crianças estavam brincando durante o isolamento social da pandemia de Coronavírus. Apresentamos aqui as recorrências e singularidades desse brincar, relatados por mães, pais e outros cuidadores que conversamos, além de nossas reflexões sobre o que ouvimos. Apresentamos também áudios de crianças brincando, que nos chegaram a partir de vídeos enviados pelos seus familiares.

Se você quiser saber mais como foi feita essa pesquisa, não deixe de escutar o episódio A Pesquisa, onde explicamos todo o processo.

Desta vez, vamos trazer relatos e reflexões sobre as janelas e as telas e como o real e o virtual foi vivido nesse período em casa.

Durante as entrevistas com as famílias, poucas mencionaram a janela. Mas quando apareciam estavam ligadas, essencialmente, ao sol que entra e, que até chegava a convidar a deitar no chão, levantar a blusa e sentir os seus raios na pele.

“O apartamento tem janelas gigantescas, aquelas janelas que pegam a parede inteira. Então a gente abre de manhã e fica aquele quadradão de sol no chão e ele brinca muito no chão, por conta do sol, de manhã.”

Assim como o sol que entrava pela janela, a vida atribulada que tínhamos no dia a dia, também entrou para dentro de casa, através de outra janela, as nossas telas. O trabalho, a escola, o bate-papo com amigos, a igreja, o lazer… tudo cabia nos tablets, celulares, computadores e televisões.

Como nos contou essa mãe que vive em São Paulo:

“Eu tava nesse esquema assim, fiz uma reunião, depois fiz outra reunião, depois fiz uma live, depois da live fiz outra reunião e depois dessa outra reunião ainda liguei para fazer uma reunião de feedback sobre a live. E aí, quando isso tudo terminou, eram onze e meia da noite, ele tava acordado ainda. Ele tá com sua rotina, de tipo, vai dormir quando eu vou dormir e acorda um pouquinho depois que eu acordo. E aí, nessa coisa que quando eu terminei, eu olhei pra ele, eu tava sentada na mesa e ele sentado no sofá, eu olhei, assim, e tipo, eu dei uma respirada, assim sabe? E ele, falei, ‘Ai, filho eu to tão cansada’. Ele abriu o braço no sofá e falou assim, ‘Então vem aqui me dá um abraço, para tudo e me dá um abraço’. E cara, como foi bom receber aquele abraço, assim, sabe, depois daquele dia cheio assim.”  

Mas como ficou para as crianças esse espaço virtual em seus mais diversos aspectos?

As saudades dos avós foi, inicialmente, o que fez com que se debruçassem sob essas telas, criando novas maneiras de se comunicar e interagir.

“A Luana gosta muito de falar com a vó no celular pelo WhatsApp, no vídeo. Ela fica… Ela chega a ficar em silêncio com a avó assim, sabe? Então eu acho que isso é uma coisa nova também, e que para minha sogra tem sido supor importante. Então ela fica… Ela conta tudo, ela mostra tudo na casa…”

Teve uma mãe que contou que a filha de dois anos adorava pegar o celular de brinquedo e ficar telefonando para todo mundo, mas quando a chamada era real, ela  fugia e não queria falar com ninguém. Ela só gostava mesmo quando a avó aparecia com o passarinho, daí ela era capaz de ficar um tempão olhando para ele.

Ah, os avós!!! Parece que com eles as conversas foram ganhando um sabor todo  especial.

“E com a minha mãe, o Kim, que é o mais velho, que enfim, tá agora com a quarentena numa alfabetização digital assim… Eles têm trocado, ela manda desafio de matemática pra ele, aí ele olha e faz por whatsapp. Aí ele vai e faz e responde, aí ele manda Gif, aí ela não manda Gif. Ela não sabe mandar Gif, mas ele aprendeu com um amigo. E aí, com ela, é a pessoa que ele tem mais relação assim dessa troca.”

“Oi, linda da vovó. Quem que gostou do docinho? ‘Eu!!!’ Tava gostoso, meu amor? ‘Sim!’ E a caixinha? Vocês guardam a caixinha que a vovó fez? ‘Sim.’ Achou bonitinho? ‘Sim, aí uns dias atrás, tipo ontem – foi ontem, né – a gente ia fazer um piquenique e aí a gente ia levar a bisnaguinha, né, e aí depois a gente usou a caixinha. A gente usou a caixinha pra guardar.’ Ah, que legal!”

“Bisa, alô bisa. Caiu. A gente não tá ouvindo, não tá sabendo mexer, tá no mudo, não sabe mexer direito no celular.”

Um pai contou que a filha tinha inventado com a avó uma forma de brincar de mímica por vídeo. A brincadeira era assim: uma desliga o microfone e fala uma palavra, aí a outra tinha que adivinhar o que tinha sido dito, só lendo os lábios.

“Agora escolhe outra coisa sem ser fruta. ‘Animal’. Sapo. Quê? Vai de novo. Pera aí… centopeia? ‘Não. Quer que eu fale?’ Quero. ‘Antílope.’”

“Ela não faz muita questão com crianças, mas com as avós, ela fala sempre. Ela gosta mais de conversar sobre coisas assim, triviais né, coisas sobre, sei lá, dia a dia, falar o que ela tá fazendo, enfim, é muito fofo.”

Ouvimos  sobre crianças que colocavam o celular ao lado da cama para que os avós contassem histórias para eles dormirem e, assim, eles podiam ver a carinha da criança adormecendo.

Falar através de eletrônicos não é algo novo, mas parece que para muitas famílias os avós inauguraram essa maneira de falar através de silêncios, da contemplação de passarinhos ou de brincadeiras. Eles iam para além da conversa oral, do só dizer e escutar.

Principalmente para as crianças mais novas, se comunicar por telas chega a ser um desafio.

Sentar e ficar conversando? Mesmo que seja com aquele melhor amigo, uma tia querida, havia algo ali que não se ajustava.

Mas como sempre, acham um jeito e se adaptam como podem. Simplesmente, saíam andando exibindo o que haviam construído no seu quarto, a rampa que haviam feito lá fora, ou mostravam a pipa que voava no céu.

O adulto que estava em casa nesse momento,  se quisesse que a conversa continuasse, tinha que sair literalmente carregando o celular atrás da criança.

E, dessa forma, nos lembramos que, sim, estava faltando alguma coisa nessas conversas.

“O Antônio fica olhando e… não fica uma pessoa ali chapada que não toca, que não… E então isso tem sido uma questão. O Antônio não tá rolando fazer videoconferência. As pessoas não sabem fazer isso, não estão preparadas pra isso, então também fica difícil, e aí os adultos também perdem a paciência porque a criança não responde. ‘Então tá, então tchau.’”

A comunicação para elas é uma verdadeira interação,  acontece com a presença do corpo inteiro. Sem tocar, mostrar algo ou interagir pelo brincar…. a conversa perdia a graça. 

Um pai que mora em Lima, no Peru, nos contou como funcionava as conversas para o seu filho de 05 anos:

“O Lucas é um menino muito ativo, então ele fica um pouco, mas ele não tem muita paciência para ficar conversando por 10-15 minutos. Às vezes nós promovemos aqui uma reunião por Zoom com os amigos deles, daí ele gosta até. Daí cada um mostra o que tem, os brinquedos que ganharam novos… cada um mostra alguma coisa. As mães procuram fazer alguma coisa um pouco mais educativa, fazer como… ‘Agora vão lá, peguem um brinquedo amarelo que vocês têm’, eles vão lá, buscam, essas coisas… Aí ele fica uns 15 – 20 minutos com esses amigos. Eles falam também com as avós, principalmente com a minha mãe que tá no Brasil, né.”

Uma outra mãe que mora na cidade de Kansas, nos Estados Unidos, dizia que ocasionalmente ela deixava o seu filho de 3 anos assistir os vídeos de histórias feitos pela sua professora. Mas para ele era um pouco confuso porque ele tentava responder de volta. A mãe disse que era bonitinho como ele gostava de ver a professora, mas era de cortar o coração vê-lo querendo conversar com ela.

“Occasionally I let Levi watch a video of his teacher talking or reading a story, but for him it’s a little confusing because he tries to talk back to them. It was really cute how happy he was to see them, but it was too heartbreaking for me to watch him try to talk with them.”

Essa maneira de sair pela casa apresentando os objetos, os cômodos, a geladeira, o brinquedo que mais gostam ou de apresentar suas danças e músicas… criava um jeito onde o escutar e o ver, o se movimentar e falar, iam se mesclando e se integrando na conversa. E assim, marcaram um limiar entre uma conversa real e virtual, trazendo para essa comunicação, a materialidade do corpo e a presença dos sentidos. Como se estivessem permitindo o sol entrar dentro das telas, unindo assim essas duas janelas.

Uma menina de 10 anos, que mora em Florianópolis, nos explicou o que ela e as amigas brincam online:

“A gente também tem feito umas ligações em grupo né. Aí a gente pega papel e jogos que dá para jogar com papel, por exemplo, Stop. A gente também tem criado um que a gente desenha com a mão que não escreve porque tem duas das amigas que são canhotas, mas a gente tem que desenhar com a mão esquerda, aí gente tem que desenhar alguma coisa e aí a gente mostra na tela e as outras têm que adivinhar o que é. A primeira que adivinha o que é vai ser a vez dela.”

“Ah, eu falo. Tá bom. Ela falou para eu te falar que tiveram duas festas. Teve a festa surpresa e ela tinha programado uma festa do pijama virtual. Aí, outra coisa que aconteceu também foi que algumas crianças, alguns amigos da Cê, foram mandando coisas que tavam fazendo em casa. Então, por exemplo, a Malu Orlandes mandou uma foto de uma roda gigante que ela fez com papelão. Aí ela quis fazer. Então a gente fez esse projeto do parque de diversões que ficou bem bonito. E aí o Noah um dia mandou um vídeo que ele tava fazendo perfumes. E a Cecília gostou muito e aí ela fez  um perfume também, a partir da ideia do Noah, e também resolveu colocar outros ingredientes. E aí eles se trocam né essas coisas.” 

Parece que não importa se é com mímica, com lápis e papel, bingo, mostrar detalhes da casa, contar história para dormir ou assistir o passarinho, a experiência com o corpo inteiro sustenta a comunicação infantil.

Como percebeu essa mãe indígena que vive com os seus dois filhos na moradia da universidade onde estuda.

“Talvez a gente adulto tenhamos mais, assim, necessidade de falar pelo telefone ou pela internet com os amigos. Mas eles dois aqui nunca fizeram questão.
Na verdade eles sentem falta de sair pra correr, pra brincar com os outros colegas da escola mesmo. Mas não de falar. É bem curioso.

Mas quando o assunto foi o tempo de uso das telas, raros foram os relatos que diziam ser algo que estava totalmente liberado. Para a maioria das famílias esse tema ainda provoca questões difíceis de lidar.

“Eu tenho muita dificuldade porque eu sinto que como essa coisa dos eletrônicos, da gente… o tempo que a gente permite que elas fiquem nos eletrônicos é sempre uma questão, é sempre uma briga, é sempre uma disputa, qualquer interação pelo computador ou pelo celular, pra mim, como mãe, é um pouco… por mais que eu tente me convencer de que elas estão interagindo, de que elas também têm saudades das amigas, de que elas também têm vontade de conversar com as amigas, eu… elas estão, pra mim, elas estão na frente de uma tela, sabe?” 

E essa  reflexão não ficou só no uso feito pelas crianças, mas pelos próprios adultos, como nos relatou essa mãe que mora em Vitória, no Espírito Santo:

“Então a gente tenta pôr aí  limites, né, mas sabendo que a gente tem que ser coerente com o que a gente acredita, com os limites, mas também com… bem, então ninguém está conectado, né, se a gente não quer que ele esteja, nós também não devemos estar tanto tempo, né.” 

“Eu gosto de desenho, filme, série… e de desenho né… e também gosto de jogo.” 

“Eu gosto muito de brincar no tablet. E tirar foto e depois ver minhas fotos todas. Tem com a prima, irmã, natureza e do papai trabalhando. Eu não posso mexer toda hora porque às vezes eu tenho que brincar, eu tenho que estudar. Então 20 minutos.”

Alguns buscaram meios de dar limites a esse tempo de uso.

“E ficam essa meia-hora lá, jogam. Assim que apita o relógio – porque a gente põe o despertador, senão a gente acaba esquecendo, né? É muito fácil da gente deixar a criança no celular. Eles já conhecem as regras, o revezamento.”

Mas o  discurso mais frequente, era com esta relação com as telas, parecia estar criando uma culpa coletiva em pais e mães, como nesse relato dessa mãe que vive em São Paulo:

“O Kim acorda muito cedo e ele sabe que se eu estiver exausta eu vou deixar ele ver televisão. Então é.. hoje por exemplo, aconteceu isso. E é uma culpa que de vez em quando eu tento me tirar e de vez em quando eu carrego ela. Que é ver essa televisão de manhã. Então acorda e vai pra minha cama e ‘Mãe, posso ver televisão?’”

E quando o tema era videogames, ouvimos  relatos de como era difícil lidar com as  estratégias criadas para manter o interesse do usuário, como as constantes atualizações, novidades, e alertas, assim como fazem tantas outras ferramentas tecnológicas.

Como nos relata esse pai que mora em Nova Jersey, nos Estados Unidos:

“What’s interesting is that they had a few games on the phone that even when your done with the game, when your eating, or playing something else, when the phone is being charged … you’ll get these little sounds coming out saying: “Hey, remember me ? Come back. Play with me.”

Ele comentou que tinha uns jogos no seu celular, mas mesmo quando estavam comendo ou brincando de qualquer coisa, o celular fazia aqueles avisinhos sonoros como se dissessem assim: ‘Ei, lembra de mim? Não me esqueça, brinca comigo.’”

“Meteroro… corre… ganhei…”

Também haviam os tutoriais que as crianças foram se adentrando cada vez mais para aprender a desenhar, tocar instrumentos ou fazer desenhos. Nesses casos, alguns pais e mães até incentivaram, por entender ser um espaço de aprendizagem autônoma.

“Eles tocam violão e guitarra, né. E, no caso, eles aprendem sozinhos, na internet ou entre eles. É uma coisa que eles aprenderam deles mesmo, eu simplesmente comprei um violão… o pai deles toca mas nunca parou pra ensinar eles, mas aí através da internet eles aprenderam a tocar.”

E por falar em aprendizagens, como aconteceu a interação escolar das crianças durante esses tempos em casa?

No questionário não havia uma pergunta sobre a escola, afinal, falar de todos os desafios que envolveram a educação durante a pandemia, seria necessária uma nova pesquisa. Mas a escola é um aspecto determinante na vida das crianças e não haveria de ficar de fora.

O interessante foi notar que esse tema surgia, principalmente, quando falávamos das rotinas das crianças. Parece que a escola garante a organização de um ritmo no dia a dia das famílias, tanto antes como durante a pandemia.

“A Yasmin estudava em duas escolas: na escola mesmo, que ela ia de manhã, das 7h30 às 11h30 e aí eu aproveitava esse horário pra me organizar com as coisas de casa, almoço, enfim. Aí eu buscava ela às 11h30, trazia ela pra casa, ela almoçava e ficava comigo até às 2h00. Às 2h00 horas ela vai pro Pró-Saber e fica até às 5h00. Enquanto ela está no Pró-Saber, eu ficava no comércio da minha mãe. E duas vezes por semana eu ficava lá com ela à noite até às 9:00 e três vezes na semana a gente ia pra casa.”

Mas com a escola agora dentro de casa, aulas online, crianças com dúvidas nas matérias, entregas de lições de casa, isso acabou exigindo das famílias uma intensa participação, como nos contou essa mãe que mora na Bélgica:

“Principalmente na escola né, a gente dá um valor super enorme, mais ainda na escola, porque é impossível a gente conseguir educar nossos filhos sem a escola. A escola online é muito complicado. Não dá para conciliar a vida da gente, trabalho em casa e orientar as crianças com a escola.”

Ou o desabafo dessa outra mãe do Rio de Janeiro:

“Os professores mandam vídeos. Eu virei aluna. Então eu tenho que ficar assistindo os vídeos para aprender e pra o Gael. O que eu acho legal,  mas não tá sendo a minha prioridade.”

E para aqueles em que a escola não seguiu acontecendo devido a dificuldade de recursos eletrônicos em casa, ou pela impossibilidade da própria instituição, criou-se  preocupações de outras ordens nos pais, sem contar com a desigualdade social que ficou ainda mais evidente.

Mas em geral as famílias se viram misturadas ao papel de educador, o que gerou inúmeras questões. Desde como ajudar nas tarefas, reflexões sobre os conteúdos oferecidos, formas de aprendizado online, até perguntas de quais as demandas de uma criança, que ficam na mão dos pais ou da escola.

“É bem difícil o conteúdo, na verdade, pra assimilar, porque a criança sentada na frente da televisão ela não está prestando tanta atenção na matéria, né? Aí eu tento repassar com ela daí até 10h30, até a gente conversar 11h00.”

“Como nós adultos, elas também estão vivendo uma situação de quarentena de pandemia com as angústias que acontecem nesta fase e é muito alienante ficar estudando coisas tão díspares em um momento como este, desconsiderando as emoções das crianças, a realidade da família que muitas vezes não tem como acompanhar os estudos das crianças, e esse é o meu caso.”

Foram momentos de muitas reflexões, inclusive o quanto vivemos em uma sociedade que tem nos liberado desse papel de educar os filhos. Somos criados para sermos líderes, trabalhadores, cidadãos, termos opinião e segurar o sustento financeiro da casa. Mas educar filhos… isso é assunto nebuloso para muita gente. Hoje sabemos muito mais sobre política, mercado econômico e futebol, do que o que fazer com o nosso filho quando ele chora, tem pesadelos ou como dar limites no dia a dia. Será que conhecemos de fato as características mais típicas de uma criança na faixa etária do nosso filho ou filha?

Daí vem essa pandemia de Covid que nos disse assim: fique em casa com seu filho e filha. Cuide, eduque, crie, dê conta do choro, do tédio, da euforia corporal, das dúvidas de matemática… e todo o pacote que é ser criança. E vimos acontecer um certo pânico que estava se instaurando em muitas famílias. Mas outras não, aliás, algumas ficaram até aliviadas e felizes por acompanhar mais de perto o dia a dia das crianças, como é o caso dessa mãe que vive em Belo Horizonte, em Minas Gerais:

“Eu acho o caso dela também tem essa peculiaridade de que nem as escolas sabem muito bem como alfabetizar. E aí na quarentena, eu tô aqui, 24 horas por dia com ela, atenta às reações dela, eu posso me dedicar a entender melhor isso, então é uma oportunidade. Mas e se não tivesse? Quantas e quantas crianças numa condição como a dela não são alfabetizadas ou não conseguem nem permanecer na escola. Isso é uma coisa muito delicada também, porque mesmo entre a deficiência existe gente que hierarquiza, tem gente que fala deficiência leve, deficiência grave. A deficiência grave é a deficiência da sociedade.”

Enquanto estávamos imersos em perguntas e reflexões, as crianças seguiam dando notícias do quanto o corpo, esse canal máximo de comunicação com o mundo de dentro e de fora, não podia ficar desabitado, nem em tempos de isolamentos. E as famílias que abriam espaço para tirá-las das telas, logo percebiam o que vinha depois.

“Em todas as famílias a gente tem isso, né, das crianças quererem os joguinhos online. Quando eu tiro o computador, a Ana senta pra brincar com as bonecas dela, várias vezes. E às vezes passa um tempo bem maior que uma hora. E o Fernando brinca um pouco com os carrinhos e depois ele lê.”

“Tinha noites que eu perguntava pra elas: ‘Vocês querem ver um filminho, vocês querem ver uma tv?’ E elas não queriam, elas preferiam ficar brincando com os brinquedos. Isso é uma coisa muito inédita porque o filminho é sempre a primeira opção e elas sempre querem interromper qualquer coisa que elas estejam fazendo pra poder ficar na televisão, né, ou no computador. E isso aconteceu com alguma frequência, não foi uma nem duas vezes. Isso realmente foi algo que elas começaram a perder um pouco o interesse pela televisão.”

Culpa, novas descobertas, limites, sentir-se mais perto de quem estava longe, brigas sobre o tempo de uso, receber conteúdo das escolas. Com seus aspectos positivos e negativos, foi fato que esse espaço digital se instalou dentro de várias casas, a depender do contexto de cada família. Saber usá-lo, sem precisar de uma visão reducionista de ter ou não ter telas, é o maior desafio atual.

A mediação e a educação para seu uso vai muito além do período da pandemia.  Este tem sido o caminho para evitar que as crianças fiquem à deriva nesse mar de possibilidades sem fim, e se tornem vulneráveis a problemas indesejáveis, como por exemplo, a tirania da felicidade inalcançável, a validação por curtidas, a sexualização precoce, ou o vazio de passar horas navegando sem propósito.

Mas já sabemos que essa não é uma responsabilidade apenas das famílias, e sim um desafio multi-setorial, onde diferentes órgãos públicos e privados, incluindo a escola, devem se unir para garantir experiências digitais saudáveis na construção de leitores críticos para tudo o que nos trazem essas janelas.

Um esforço coletivo para que as crianças possam acessar, essencialmente, as janelas que lhes apresentam o que há de vivo e ativo dentro e fora de si mesmas.

E na sua casa, em que janelas se brinca?

CRÉDITOS:

Brincar em Casa, este podcast do Território do Brincar foi feito com o patrocínio do Instituto Alana. Agradecemos todas as mães, pais, tias e avós que conversaram sobre suas experiências de quarentena. Agradecemos você, ouvinte pelo interesse e retornos. Agradecemos o grupo de Pesquisadores, Elisa Hornet, David Reeks, Gabriel Limaverde, Lia Mattos, Reinaldo Nascimento, Renata Meirelles, Sandra Eckschmidt, e Soraia Chung Saura que dedicaram tanto do seu tempo contemplando, dividindo, entrevistando, e analisando esta experiência. A Coordenação da pesquisa é de Sandra Eckschmidt e Renata Meirelles, essa que vos fala. Co-direção e finalização de David Reeks. Mixagem Som de Black Maria.  Trilha sonora Blue Dot Sessions. A edição e desenho sonoro é de Fernanda Leite e David Reeks. Produção de Renan Paini. Assistência técnica de Guilherme Annes. A equipe do Território do Brincar: Thais Oliveira Chita e Maria Clara da Silva Matos. Até a próxima.

 

 

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