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21
fev-2019

Brincadeiras do Cariri

A equipe do programa Território do Brincar bateu um papo com a Ilustradora e arte-educadora Letícia Graciano, que lançou recentemente o livro Quintais do Cariri – pequeno registro do brincar.

Letícia foi visitar em 2014 a cidade de Limoeiro do Norte, lugar em que seu avô nasceu, se apaixonou pela região e acabou conhecendo o Crato, Potengi e Juazeiro do Norte. Ela, que já observava atentamente o brincar das crianças, dedicou-se não apenas a conhecer, mas a aprender e a registrar os brinquedos e brincadeiras das crianças das regiões pela qual passava. Quintais do Cariri – pequeno registro do brincar nasceu desse olhar cuidadoso, que também documentou três curtas-metragens das brincadeiras: bila, xibiu e casa de formiga.   

1. No livro, você conta que foi para Limoeiro do Norte conhecer o lugar em que seu avô nasceu. Naquele momento você já tinha o olhar voltado para o brincar e para as brincadeiras?

Letícia Graciano (LG): Sim! Desde 2006, o ano que entrei na faculdade de artes visuais, tenho me envolvido com diversas propostas e espaços de arte-educação (na maioria com crianças) e em 2012 resolvi fazer um curso no Instituto Brincante com o objetivo de aprofundar algumas linguagens artísticas. Foi lá que conheci Péo, Lydia Hortélio e Lucilene Silva, mestras que me mostraram a potência do brincar na infância. A partir daí, por onde andava, no trabalho ou passeando com crianças e adultos, gostava de aprender brincadeiras novas ou observar as crianças se relacionando. Como fui para Limoeiro do Norte em 2014, os olhos já brilhavam quando me deparava com as brincadeiras cearenses.

2. Qual a importância do brincar na realidade das crianças que observou? O que mais surpreendeu você?

LG: Para as crianças que conheci, acredito que brincar é liberdade. É poder escolher o que fazer, quando fazer, com quem fazer, e estar presente naquele momento tão delicioso que é o de brincar. É forma também de ocuparem os espaços – nas escolas, na rua, nos quintais. Espaços que muitas vezes não são preparados para recebê-las, mas as crianças ocupam e os transformam lindamente! Difícil dizer o que mais me surpreendeu. Sempre ficava encantada com alguma cantiga nova que aprendia ou com algum jeito de brincar diferente do que conhecia. Com o tempo de morada no Cariri, algumas pessoas sabiam do meu gostar pelas brincadeiras, e sempre aparecia alguém contando algo novo. Mas fiquei muito surpresa com o retorno às comunidades que visitei para mostrar os curtas e entregar os livros. Não imaginava que seria recebida com tanta alegria e carinho. E era muito emocionante quando as crianças se viam no livro, suas reações, sorrisos largos e abraços apertados. Não imaginava tanta alegria nesse momento!

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Garotos jogando bila | fotos: Hélio Filho

3. Muitas pessoas procuram significados no brincar das crianças, como se ele tivesse uma função específica. Como você vê essa abordagem? Como as pessoas veem o brincar hoje?

LG: No mundo adulto, principalmente, quando nos referimos às crianças, parece que sempre temos que ter explicações científicas ou finalidades funcionais para validar a escuta e a valorização do brincar. É muito fácil encontrar o brincar sendo utilizado como meio para chegar a algum lugar ou algum conhecimento. E acho muito triste não conseguirmos, ainda, em uma totalidade, como pais, educadores, adultos, ver esse gesto tão profundo e primitivo que é o brincar com olhos mais atentos e generosos.

Com relação aos pais, mães e educadores que encontrei durante a pesquisa, a grande maioria diz que as crianças não brincam mais. Alguns culpam os eletrônicos, outros dizem que elas param de brincar muito novas e isso é muito curioso pois demonstra que não estamos olhando para essas crianças de fato. Pois elas brincam e muito!

Acho que a sociedade ainda vê o brincar na infância como algo secundário, como ferramenta de aprendizagem, mas também acredito que essa visão tem sido alterada e discutida em muitos lugares, por muitas pessoas (O Território do Brincar faz isso lindamente, né?!). E isso é maravilhoso para nós e para as crianças.

4. No livro você faz um pequeno perfil da Mestra Zulene. Qual a importância dos mais velhos para o registro e propagação das brincadeiras?

LG: São fundamentais. As crianças aprendem brincadeiras entre si, mas os adultos que brincaram na infância, têm muito o que compartilhar com os mais novos. É muito bonito ver essa troca entre as gerações. Juntos, partilhando saberes. Permite, inclusive, estimular que novas versões de brincadeiras surjam na cabeça das meninas e dos meninos. No livro, não tem somente o registro de  mestra Zulene, que me cantou cantigas de roda, mas tem mestra Bizunga, no quilombo Carcará, em Potengi, que brinca de roda com as filhas e netas, tem Dona Luzanira que sabe jogar o Xibiu e ensina para quem quiser aprender, tem Dona Maria India que faz bonecas de pano lindas. De novo, é só estarmos atentos, olhos e ouvidos para a sabedoria brincante que eles possuem.

No mais, espero que esse livro potencialize histórias, trocas e brincares em tantos outros lugares, com tantas outras crianças.

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