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19
mar-2014

Dados linguísticos e etno-históricos recentes mostram que os Panará do Peixoto Azevedo/ cabeceiras do Iriri são os últimos descendentes de um grupo bem maior e mais conhecido como Caiapó do sul, que ocupava a região entre o norte de São Paulo, sul de Goiás, leste de Mato Grosso, sudoeste de Mato Grosso do Sul e a região do triangulo mineiro no século XVIII. Nessa época, houve muitos conflitos decorrentes do processo de ocupação da região por colonizadores, impulsionados pela presença de ouro na região. Há dados que apontam a presença de milhares de Caiapó do Sul ainda no século XVIII, porém as investidas do governo contra essa população resultou no quase total desaparecimento desse povo nessa região e na migração, no século XIX, para as matas mais fechadas ao norte do MT.

Se é correta essa hipótese de que Caiapó do Sul eram realmente os Panará, talvez possamos relacionar com relatos da tradição oral contada pelos velhos. Os Panará contam que vieram do Leste, de uma região de campos cerrados habitados por ipen (brancos ou outro povo na língua panará) com quem travavam frequentes conflitos, de lá deslocaram-se até a região do rio Peixoto de Azevedo (afluente do rio Teles Pires, formador do rio Tapajós no norte do Mato Grosso), atravessando três grandes rios. Nesse local encontraram prosperidade e paz. Lá fizeram uma aldeia chamada Atuiasâ, possivelmente no início do século XIX, onde nasceram muitas crianças e puderam aumentar a sua população. Depois desse tempo, com população aumentada, os panará dividiram-se em novas aldeias espalhando-se pela região, encontrando novos conflitos com outros povos indígenas e defrontaram-se com o evento que marcaria para sempre a vida desse povo: a construção da estrada BR 163 que cortou ao meio o território que ocupavam.

Na década de 70 o governo brasileiro, mesmo sabendo da presença dos Panará, resolveu construir essa estrada com o intuito de ligar a região centro-oeste ao norte do país, traçando uma estrada que vai de Cuiabá em Mato Grosso à Santarém no estado do Pará e chamaram os irmãos Villas Boas para pacificar os índios e retirá-los do local das obras. Porém os panará, atordoados entre a presença dos tratores e a frente de atração, fugiram por quatro anos dos brancos sem permitirem o contato. No entanto o contato indireto com o branco seja por meio de presentes deixados nos varais pela frente de atração para amansar os índios, seja pela proximidade dos trabalhadores da obra, foi suficiente para o contágio de doenças que os panará não conheciam nem tinham remédio, gerando uma drástica onda de mortes que reduziu novamente a população dos panará. Estima-se que de 400 panará que havia nessa época sobraram apenas 74 quando se renderam ao contato em 1973. Os mais velhos contam que as pessoas morriam tão rápido que não tinham nem tempo de enterrar seus mortos.

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Os irmãos Villas Boas, verificando a grave situação dos Panará resolveram transferi-los para o Parque Indígena do Xingu em 1975. Os Panará deixaram a terra de seus ancestrais, deixando suas roças e aldeias para trás. No Parque mudaram-se muitas vezes de aldeias e não conseguiram se adaptar, quase não tiveram filhos, pessoas continuaram morrendo e estranharam o novo ecossistema que não conheciam e que não tinha os recursos naturais que estavam acostumados a usar. Sempre sonhavam com a terra que haviam deixado para trás e nasceu dai uma grande vontade e movimento de retomada de seu território de origem.

Então os panará mobilizaram importantes parceiros que os ajudaram na retomada de seu território, nas primeiras expedições se depararam com uma triste realidade, os brancos haviam comido sua terra. A sede da maior aldeia Panará, tornara-se o município de Matupá e muitas outras aldeias deram lugar a formação de núcleos urbanos. Mas encontraram próximo as cabeceiras do Iriri um pedaço de terra preservada, com floresta, rio, caça condições suficientes para acender a esperança de voltar a morar em seu território. Assim empreenderam uma grande luta e em 1996 conseguiram que o governo demarcasse cerca de 490 mil hectares de terra, formando a TI Panará.

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Mudaram-se do Parque para a TI Panará, onde encontraram novamente paz e prosperidade para crescer e em 16 anos quase triplicaram a população. De 183 pessoas que chegaram a TI Panara, hoje vivem aproximadamente 500 pessoas, 75% possuem abaixo de 18 anos. São muitas, muitas crianças em Nãsêpotiti. Conhecer as brincadeiras de suas crianças nos revelou a vivacidade da cultura Panará e como a chama de um saber ancestral consegue se manter viva apesar de todas as adversidades históricas por que os Panara passaram. As brincadeiras trazem traços que marcam o conhecimento e história panará: a relação de quando os bichos eram gente, as guerras com outros povos, a imitação constante das práticas dos adultos, a exploração dos recursos naturais para a confecção dos brinquedos e a (re)criação em miniatura de tudo o que se vê ao redor.

Texto: Paula Mendonça

Fontes
Site – Povos Indígenas no Brasil
Relatórios:
MENDONÇA, Paula. 2006. Oficina Temática: História do Território Panará Instituto Socioambiental.
MENDONÇA, Paula. 2010. Expedição: Aldeias Antigas Panará. Instituto Socioambiental.
JUNQUEIRA, Paulo. 2012. Expedições aos sítios históricos dos povos indígenas Ksêdjê, Panará, Kawaiwete e Yudja. Instituto Socioambiental/ IPHAN.

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