• pt-br
  • en
  • es

17
mar-2014

IMG_8759Os dias passam, mas a vontade desses meninos de apresentar para nós os seus saberes fica. Quando é de noite já estão nos rodeando com sugestões para a próxima manhã. “A gente ainda não fez o carrinho de carretel”, diz um. “Por que a gente não vai caçar caranguejo no mangue?”, diz o outro. A lista não se esgota, querem mesmo é alguém para compartilhar, conviver, brincar.

A tarefa da escola resolvem na escola mesmo, ou à noite, antes de dormir. Buscam a liberdade, não querem perder tempo com nada que esteja fora das preciosas experiências vividas.

Por vezes me pergunto se não estamos abarrotando demais a vida deles com tantas brincadeiras. Vou escutar as mães, perguntar se está tudo bem eles virem para nossa casa todo dia e sair por aí brincando conosco. “Ah sim, pode sim. Esses meninos vão chorar muito e estranhar demais quando vocês forem embora daqui.” E nós então, nem se fala.

IMG_8757

A troca é intensa. Eles ensinam e nós a eles. O repertório que trazemos na mala vai sendo espalhado, derramado de volta para crianças de outras regiões. Amarelinhas, bicudas, brincadeiras da pista, formas de pular elástico, mágicas de barbante, 5 marias, cantigas, piadas, causos … sendo redistribuído de volta para a infância.

Aqui em Tatajuba a maior febre foi o pião que estava adormecido para a geração de meninos entre 6 e 14 anos. Começou quando um dos meninos, circulando diariamente na nossa casa e brincando com os brinquedos que nossos filhos carregam consigo, ele achou nossa sacolinha de piões e foi logo pedindo: “me ensina a jogar esse?”. Foi a deixa para criarmos essa ótima oportunidade de intercâmbio.

O David é o mestre dos lançamentos, aprendeu a jogar pião na Amazônia e nunca mais perdeu o vício desse jogo. Organizou-se na varanda da nossa casa um verdadeiro pátio de jogo. Todos os dias eles aparecem por aqui, sabem onde estão os piões e sentem-se livres para ficar horas nas tentativas. Mesmo enquanto estamos almoçando, jantando, trabalhando no computador ou colocando nossos filhos para dormir, há sempre um grupinho de crianças girando pião ou brincando com qualquer outro dos brinquedos dos nossos filhos. Assim, sem ter que organizar oficinas, workshops ou envolver professores e a escola, estamos vivendo uma intensa troca de brinquedos e brincadeiras da forma mais natural possível, simplesmente brincando junto.

IMG_8760

Os rapazes com mais de 20 anos são feras no pião, rodam na mão sem tocar no chão e sabem os truques das grandes batalhas. O que aconteceu que o ciclo se rompeu? Por que esse brinquedo não chegou nas mãos dos meninos de hoje? Ninguém sabe dizer ao certo. Foram parando de jogar, hoje em dia ninguém mais tem pião e a brincadeira simplesmente adormeceu, perdeu a força e não criou o gesto nessa nova geração.

Ontem mesmo o grupo se reuniu na nossa varanda para aprender a fazer a “bicuda” (tipo de pipa feito com papel sulfite, que aprendemos em Acupe-BA). Alguns dias atrás, eles viram nosso filho mais velho empinando a bicuda no campo de futebol e vieram correndo pedir: “ensina a gente a fazer isso?”. Claro, vamos arrumar linha de pipa para todos e é só vir aqui que a gente ensina.

Nesse tipo de viagem é importante carregar consigo materiais como barbante, linha de pipa, faquinhas, martelo, pregos, piões, elástico e filhos que gostam de brincar dessas coisas. Essas são as chaves para a brincadeira surgir naturalmente.

Mostramos no computador o filme que fizemos dos meninos de Acupe ensinando como fazer a bicuda, e deixamos a tarefa de ensinar as dobras do papel para o nosso filho que, aos seus 6 anos, sabe o valor do intercâmbio do brincar.

Pronto, a bicuda já está instaurada em Tatajuba e de agora em diante, meninos daqui conversam com meninos de Acupe através dos voos livres de um papel sulfite.

Sempre nos perguntam se as crianças dessas comunidades não assistem TV ou jogam videogame. Sim, jogam videogame e gostam de assistir tudo o que qualquer criança gosta, só que quando encontram alguém disponível para ouví-los, para brincar com eles, e organizar passeios por aí, as tecnologias perdem a força, saem de foco e não alimentam tanto quanto o brincar. Vez ou outra isso não é verdade, preferem a TV do que ir brincar, mas aqui em Tatajuba, com esse grupo de meninos a brincadeira sempre ganha.

Texto: Renata Meirelles

 likes
Share this post:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Archives

> <
Jan Feb Mar Apr May Jun Jul Aug Sep Oct Nov Dec
Jan Feb Mar Apr May Jun Jul Aug Sep Oct Nov Dec
Jan Feb Mar Apr May Jun Jul Aug Sep Oct Nov Dec
Jan Feb Mar Apr May Jun Jul Aug Sep Oct Nov Dec
Jan Feb Mar Apr May Jun Jul Aug Sep Oct Nov Dec