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Confira alguns trechos da entrevista com o Prof. Dr. Paulo César Scarim, geógrafo da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), sobre agricultura familiar, trabalho infantil e aprendizado sob a perspectiva do camponês. 

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“O entendimento do trabalho infantil vem do entendimento do urbano, ou seja, tem uma relação com o trabalho diferenciado. Por exemplo, o urbano tem uma separação entre o espaço da casa, da escola, do trabalho, do lazer: é tudo separado. Essa é uma lógica da cidade atual. Essa separação também se pensa pelos tempos: o tempo do estudo, o tempo do trabalho, do brincar, tudo separado. Para a agricultura familiar, esses espaços acontecem no mesmo lugar e ao mesmo tempo”.

“Criminalizaram o trabalho, mas uma coisa é a exploração do trabalho infantil, outra coisa é o trabalho. Na agricultura familiar a criança está aprendendo pelo trabalho aquilo que a família tem que ensinar. O trabalho é o fazer”.

“Como é que se aprende a identificar um canto da galinha quando ela botou um ovo? Como é que se aprende a plantar? Na escola? Então vai estudar até os 18 anos, não vai trabalhar, aí depois vem da escola sabendo tudo o que deveria ter aprendido e vai plantar? E aí ela vai plantar como? Vai tirar leite como? Não sabe nada. E aí ela chega em casa, os pais estão na roça e ela vai ficar fazendo o que? Assistindo televisão? Fazendo lição? Não pode nem colher um ovo, não pode ajudar a colher o café que dizem que é exploração…”

“A mão tem que aprender! Qual é a forma da mão quando colhe o algodão? E o café? E a ordenha? E como é que se aprende isso? No livro? Como é que se aprende a mexer com madeira? Na escola? A lógica do trabalho, a posição do corpo, a criança fica anos ali observando e quando toca já sabe. Agora dê um martelo para uma criança que nunca viu alguém martelando, é risco na certa. E é algo que é muito lento, não é algo que se faz em uma aula. Não há como aprender a ordenhar em uma aula… Não tem outro jeito de aprender a não ser desde criança, desde muito cedo, desde bebê. Não tem idade e é para a vida toda”.

“Difícil perguntar para uma geração que viveu a realidade da agricultura familiar quando ela começou a trabalhar. Não sabem dizer (sempre trabalharam)”.

“Não é que a lei não tenha razão, mas como separar as coisas (entre exploração do trabalho infantil e o trabalho em si)? Então isso se torna arbitrário, se generaliza e há uma incapacidade em separar as duas coisas. E aí faz o quê? Vai pelo mais fácil? E como a lei pegou, e não tem muito argumento ao contrário, então não tem como. Ninguém é a favor da exploração do trabalho infantil, mas delimitar isso é muito difícil, então, vai pelo caminho mais fácil: a generalização”.

“Na comunidade rural, o conhecimento se passa pelo trabalho. Não é possível diferenciar o que é brincar e o que é aprender a trabalhar. Grande parte da brincadeira tem a ver com o fazer coisas, então como é que vai aprender a brincar se não sabe fazer? Vai comprar? Vai comprar um pião, um carrinho. Mas se não compra tem que saber fazer e como é que vai aprender a fazer? Tem que usar serrote, facão, mas vai ter aula de usar facão? Tudo é trabalho, tudo é técnica e isso tem que aprender fazendo”.

“No campo todo mundo trabalha, não há ninguém que não trabalhe. E a pessoa trabalha desde quando nasce até quando morre. Não se separa o que é trabalho e o que não é trabalho”.

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