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07
set-2015

2ª CONANE: 2º dia – trapaça, direitos e brincar

O relato pode ser lido no blog de Anders Bateva ou a seguir:

Ontem ocorreu o 2º dia da CONANE (Conferência Nacional de Alternativas para uma NovaEducação), no CEU (Centro de Ensino Unificado) de Higienópolis (Professora Arlete Persoli). Para este dia, escolhi participar das rodas de discussão A Construção de um Currículo Flexível e Participativo, e Educação em Direitos. Você pode ver a programação completa aqui.

Localização do CEU Arlete Persoli na grande São Paulo.Fonte: Google Maps.
Localização do CEU Arlete Persoli na grande São Paulo.
Fonte: Google Maps.

Abertura: integração

A abertura do segundo dia foi uma integração, Cooperação na Educação. Consistiu de um aquecimento na forma de dança rítmica. Depois, houveram dois jogos, um de competição e outro de cooperação. O de competição foi o Campeonato Mundial de Par-ou-Ímpar, e o de cooperação foi Número Mágico.

Nota: quando se perguntou se era preciso explicar pra alguém as regras do par-ou-ímpar, todo mundo riu, mas logo se descobriu que os estrangeiros não conheciam, e precisou ser explicado.

No campeonato de par-ou-ímpar, as pessoas andariam aleatoriamente pela sala, e quando se deparassem com outra pessoa, teria o início um duelo: quem perdesse saía do jogo, e quem ganhasse voltava a perambular.

No de número mágico, as pessoas perambulavam, e no duelo, os dois tinham de ganhar: cada um imaginava um número de 6 a 10, jogava um de 1 a 5, e viam se a soma dois dois jogadores coincidia. Se sim, comemora-se, e volta-se a jogar até o outro jogador também coincidir. Depois dos dois ganharem, voltariam a andar e desafiar outros.

Nota: descobriu-se que quase todos os jogadores imaginaram 8.Imagem do anime Kaiji - Ultimate Gambler. Exibe Kaiji jogando Tesoura, Pedra, Papel Restrito (estas três opções estão nas cartas). Pode-se ver, no peito dele, as estrelas usadas para apostar.

Imagem do anime Kaiji – Ultimate Gambler. Exibe Kaiji jogando Tesoura, Pedra, Papel Restrito (estas três opções estão nas cartas). Pode-se ver, no peito dele, as estrelas usadas para apostar.

Eu logo me lembrei do anime Kaiji, Ultimate Gambler, onde, logo no começo há um campeonato de Tesoura-Pedra-Papel Restrito. Kaiji está no navio Espoir junto de outros perdedores que não têm a menor chance de conseguir pagar suas dívidas um dia, e foram levados para ali e colocados para jogar uns contra os outros esse jogo, onde o vencedor de todos os campeonatos teria as dívidas perdoadas, e se não me engano ganharia bastante dinheiro, e os perdedores se afundariam ainda mais, e seriam sequestrados e levados para trabalhar como escravos para o ricaço. As pessoas apostavam estrelas, e quem tivesse um certo número passava de fase. Mas o importante do jogo não é a sorte, é a estratégia: há um momento certo para jogar, um oponente certo, uma aposta certa. Alguns, sem perceber que precisariam jogar mais cedo ou mais tarde, correram para se esconder nos banheiros, para não perder as estrelas que já tinham – o que era inútil, pois assim também não ganham, além de ser contra as regras do jogo.

MAS! Neste campeonato da CONANE, não havia regra proibindo, então não dei mole, fiquei andando para lá e para cá desviando de todos que vinham em minha direção, e assim cheguei às semifinais intacto, sem jogar nenhuma vez – mas acabei perdendo. Um facilitador de outras atividades que estava participando dessa, logo a seguir do fim comentou que ele percebeu que tem uma sacanagem nesse jogo, que bastava ficar evadindo e ir pra final. Eu peguei o microfone e contei que foi o que fiz, todo mundo riu. Depois, no banheiro, um cara me zoou por ter “trapaçeado“, mas confessou que ele também pensou nisso. Eu contei a ele a referência ao desenho, mas faltou defender que isso não é trapaça pois não burla nenhuma regra – o mangá do Yu-Gi-Oh! aborda isso, na parte do começo, onde o estilo do desenho é bem diferente, a história não existe e não há suavização para as crianças, tendo mortes, apostas perigosas, etc.

Educação em Direitos

Não tenho nada a relatar sobre a manhã (onde dormi por uma parte) nem sobre a roda do currículo, onde não vi nada que me interessasse, por isso passo direto para a roda de educação em direitos.

Nela, a roda, após uma breve apresentação, dividiu-se em três grupos, cada qual para desenvolver uma abordagem diferente sobre a questão dos direitos civis na educação. Os grupos foram: poder público (Estado), sociedade civil (associações) e comunidades de aprendizagem (parentes, vizinhos, etc). Eu escolhi a do Estado.

A discussão destinava-se a determinar: quem é o poder público, o que ele pode, deve, ou não pode ou não deve para permitir ou estimular escolas autônomas. A discussão foi desenrolando-se até chegar no quê o Estado poderia ou deveria fazer. Uma garota citou uma hipótese que ouviu de outra pessoa e gostou: se você fosse Ministro da Educação, o que faria para as escolas autônomas se desenvolverem? Na situação, não poderia, segundo ela, assinar um documento dizendo que todas as escolas vão ser autônomas, pois isso mataria quase todas, já que os professores não estão preparados para isso.

Eu logo percebi uma contradição, fundamentada na dependência do Estado: não é possível você obrigar uma escola a ser autônoma, a autonomia não é algo que possa ser imposto, pois a partir do momento em que você impõe, já tirou a autonomia da escola! É uma discussão que já tive contato em embates “marxismo x anarquismo“. A moça tentou se justificar, mas não deu.

Mais adiante, uma mulher que estava do meu lado falou que “o Estado somos nós“. Eu logo levantei a mão para desmistificar isso. Mas como o tempo estava acabando e as pessoas esqueceram, deixei para lá, até essa mulher lembrar que eu queria falar. Eu disse que abria mão da fala, pois é algo dispensável, já que não estava escrito na cartolina onde estavam sendo registradas as ideias.

Mas perguntaram o que era, e eu disse que “não concordo que o Estado somos nós”. “Como assim?”. Aí tive que expor, ainda que superficialmente e rapidamente: os interesses do Estado são distintos dos do povo, e até mesmo inconciliáveis. O político não age pelo povo, age em benefício próprio. Dei como exemplo a Dilma: prometeu que não cortaria a educação, e depois que chegou ao poder, não tinha nada mais a obrigando a cumprir o que disse, e aí fez o que era mais interessante para ela. O que faz as leis funcionarem é o dinheiro, tanto é que é preciso pagar alguém para fazer as leis serem cumpridas, então é o dinheiro que manda na política, o interesse econômico. A facilitadora desse grupo disse que isso realmente é importante, e anotou com caneta esferográfica.

“Ué, mas a gente não vota neles??”. Sim, mas esse sistema de votação é uma farsa… Pensei por alguns segundos e escolhi pegar o exemplo mais batido (usado até pelos petistas!), que é o mais simples de entender e de explicar também, uma boa introdução: financiamento de campanha! Não podemos votar em qualquer um, votamos em quem está candidato, e a escolha do candidato é feita pelos empresários, pois é preciso muito dinheiro de campanha para ganhar uma eleição, e não atender aos empresários é o mesmo que perder de propósito, um contrassenso. Então, dentre as opções que temos para votar, nenhuma representa uma real mudança, pois estão alicerçadas na manutenção do status quo, que interessa aos empresários. A senhora que fez a pergunta da votação parece ter ficado um pouco sem palavras, surpresa mesmo, com a boca aberta. Mas só um pouco, não sei se depois disfarçou ou se pôs-se a confrontar pensamentos sobre isso.

Para minha surpresa, a facilitadora desse grupo disse que fiz bem em falar, pois é algo crucial para a questão: as pessoas estavam discutindo o que deve ser feito, e eu já estava entrando na questão de como fazer. Eu sorri, feliz, e confessei que tinha pensado que era uma discussão paralela. A facilitadora escreveu isso como desdobramento no núcleo “quem é o poder público?”, colocando de caneta hidrocor (destinada a pontos mais importantes) a anotação “interesses $”.

Pouco depois acabou o tempo, a facilitadora lamentou não dar para avançar mais, mas disse que já deu pra andar bem. Os trabalhos de cada grupo foram apresentados para os outros.

Roda de Educação em Direitos, no momento final de apresentação dos trabalhos dos grupos.
Roda de Educação em Direitos, no momento final de apresentação dos trabalhos dos grupos.

Território do Brincar

Em minha programação impressa, constava que seria encenada uma peça do José Pacheco, “Para os filhos dos filhos dos nossos filhos”, entretanto, a peça foi substituída, antes mesmo do início da Conferência, pela exibição do filme Território do Brincar, do casal Renata Meirelles e David Reeks. A Renata compareceu à CONANE, e por estar andando com o filme inédito “debaixo do braço” pra exibir onde quer que chegasse, e conseguiu lá.

Território do Brincar
2015
Pôster do filme Fonte: site oficial.
Pôster do filme
Fonte: site oficial.
País: Brasil
Duração: 1h30m
Diretores: Renata Meirelles e David Reeks
Roteiristas: Clara Peltier e Renata Meirelles

O filme é um documentário de brincadeiras improvisadas de crianças no Brasil. Todas são pobrese/ou índias e/ou habitantes de zonas rurais. Havia um grupo que ia no lixo jogado no mato catar carrinhos quebrados para brincar. Outro pegava uma machete, cortava raízes de árvores, serrava, pregava, etc, fazia rodas de borracha de chinelo velho (com dentes, para ficar legalzinho) e fazia o caminhãozinho. Outro fazia caminhões em que dava para sentar em cima e ser puxado, ou mesmo um carrinho de rolimã. Em outro lugar, havia uma carrocinha para a criança, puxada por uma junta de bezerros e guiada por um garoto mais velho que ia atrás. Alguns pegavam os pedaços de madeira e faziam armas, e iam se escaramuçar no mato.

Outro pegava peças de vários brinquedos diferentes, amarrava com fios e fazia um novo carrinho. Outro construía casinhas de pau-a-pique. Uns índios matavam peixes elétricos, faziam umas grelhas improvisadas e comiam. Um grupo de não-indígenas matava passarinhos e assava no fogão-a-lenha, comendo em seguida.

Outro capturava os passarinhos, não matava, e ele sonhava com capturar um tipo específico de passarinho, e essa era sua maior diversão. Outros, capturavam caranguejos no mangue preparando armadilhas com latas velhas que catavam no matagal.

Garotas brincavam com cordas e elásticos, ou costuravam dezenas de roupinhas para as bonecas. Garotos brincavam de dirigir rodinhas. Era só um cabo alto com volante, e um eixo em baixo com rodinhas, e aí eles iam correndo e dirigindo.

Renata Meirelles, David Reeks e os filhos, em 2014.Fonte: Mostra de Cinema Infantil.
Renata Meirelles, David Reeks e os filhos, em 2014.
Fonte: Mostra de Cinema Infantil.

Outros brincavam de jogar pedras para cima, pegar pedras na mesa e rapidamente pegar a pedra caindo, para ir conquistando o jogo, tendo por objetivo pegar todas as pedras. Em uma área com água, a brincadeira era construir barquinhos à vela e colocar no mar ou lago.

Questionamentos

A Renata Meirelles, questionada, expressou que reconhece o quão incrível é a engenharia das crianças, por exemplo, para fazer um veleiro equilibrado (que não vire), que deslize bem e capte bastante vento. E aí competem por quem tem o melhor design. É muita habilidade, mas as escolas não reconhecem isso, ficam cobrando habilidades inúteis dos estudantes e taxam eles de imprestáveis e trabalhosos, basicamente, porquê não se interessam pelos estudos.

Renata Meirelles após o filme, esclarecendo os questionamentos.
Renata Meirelles após o filme, esclarecendo os questionamentos.

Outro questionamento foi o fato de estarem brincando de armas, e usando facas, serras, martelos e pregos, etc., que são coisas tidas pela classe média como algo impróprio para a infância, por serem coisas perigosas. Acontece que naquela cultura, não tem nada demais nisso. Os pais quando proíbem, o fazem pelo fato das ferramentas serem caras. E aí entra em ação um idoso, que sabe fazer os barquinhos, faz, as crianças aprendem, e usam as ferramentas dele para construir os barquinhos deles. Claro que elas somem e quebram, “dá um prejuízo!”. “Mas quer saber que vale a pena?”.

A Renata também contou de uma experiência que quis fazer sobre brincadeiras na escola. Era absolutamente necessário que a brincadeira fosse espontânea, mas as professoras sempre queriam impor algum modo, algum brinquedo, algum lugar, algum horário, etc. Não deu certo. Até porquê, quando deixavam mesmo as crianças “livres”, elas mesmas não sabiam o que fazer, de tanto terem suas vontades controladas pelos adultos. Não sabem mais querer, de tão acostumadas aos adultos quererem por elas…

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