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20
jul-2016

Território do Brincar: um filme que “revela a criança a partir dela mesma”

A MATÉRIA PODE SER LIDA NO PICCOLO UNIVERSE OU A SEGUIR:

 

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Foto: divulgação do Projeto Território do Brincar

Documentário produzido por Estela Renner, diretora de O Começo da Vida, Território do Brincar chama a atenção justamente por dispensar discursos de autoridades e especialistas. Resguardo o direito de seguir a proposta do filme e não trazer, aqui neste texto, nenhuma teoria ou palavra que “respalde” o discurso espontâneo da vida expressa na ação livre da criança em seu ambiente.

O filme é uma sequência de imagens de crianças que brincam em diferentes partes do Brasil; crianças de diferentes classes sociais e culturas: indígenas, ribeirinhas, faveladas, campesinas, urbanas,todas ligadas pela cultura do brincar. Esta, mesmo em diferentes ambientes, apresenta um padrão que divide o filme quase como capítulos não nomeados.

O primeiro brincar é o profundo contato com a natureza, o rolar do alto de uma duna, ou numa poça de lama durante uma chuva torrencial. Em seguida vem o construir. Impressionante como o construir permeia todo o filme, como se as crianças vivessem numa espécie de Terra do Nunca, onde, na ausência de adultos, elas mesmas constróem suas moradas, seus veículos, suas ferramentas. Todas as crianças, independente da cultura a que pertencem, brincam de casinha, de família, de reprodução da vida social. Reproduzem o cozinhar, o cuidar do outro, os ritos e até a violência. E após o “capítulo” que trata dessa reprodução social adentra-se no campo da memória, com contos ao redor da fogueira e brincadeiras tradicionais, como pular elástico, corda, soltar pipa, bate-bola.

Sem dúvida, Território do Brincar é um filme que trata da importância, da universalidade e da poesia da criança brincar em liberdade. Trata do quanto a autonomia permite que estas crianças alcancem expressões criativas, e do domínio de ferramentas que muitos adultos considerariam inadequadas ou impensadas para sua idade. No entanto, elas surpreendem nos mais diversos aspectos. É na brincadeira que a criança experimenta suas ideias e aprende errando. Ao errar ela não se frustra, nem desiste. Há uma cena em que uma menina corta um retalho para costurar um vestido para sua boneca: o vestido fica pequeno e ela não pensa duas vezes em refazer todo o trabalho, até conseguir o resultado esperado. A felicidade da realização é o prêmio da tenacidade.

Nesse mundo mágico da infância não-infantilizada, mas de uma vitalidade que só a brincadeira espontânea pode proporcionar, somos levados a vislumbrar a possibilidade de uma organização social de múltiplas culturas, em que cidadãos se responsabilizam pelo cuidado com os ambientes dos quais fazem parte, pelo cuidado com o outro, pelo respeito ao alimento, que mesmo advindo da morte de um ser vivo não configura desperdício nem usura. Por outro lado, o filme não nos permite o devaneio e nos deserta com cenas em que crianças brincam de construir armas e representar a violência dos ambientes onde vivem. Entendo essas cenas como um convite a refletirmos sobre a nossa responsabilidade para com nossas crianças, que inevitavelmente vão brincar de representar o meio em que se inserem. Ela podem brincar de embalar os bebês, ou empunhar armas; é aí que aparece o adulto no filme, escondido atrás desse espelho que chamamos “criança”.

Território do Brincar faz parte de uma pesquisa que deu origem a diversas produções culturais: dois livros e duas séries infantis para TV, filmes de curta-metragem e artigos, além de uma exposição itinerante que percorreu o Brasil entre 2014 e 2015. Você pode ser um exibidor informal desse filme pela plataforma Videocamp, basta fazer seu cadastro e solicitar a exibição para no mínimo cinco pessoas. Que tal reunir a criançada e brincar de assistir um bom filme?

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