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30
jan-2014

Território do Brincar reúne o universo lúdico de crianças de várias partes do Brasil

A matéria pode ser lida no site do Setor 3 ou aqui embaixo:

30/01/2014 11h09min | Susana Sarmiento

A criança na batucada do bumba-meu-boi no Maranhão, a outra brinca com elástico e bolinha de gude e as meninas montam suas casinhas no Vale do Jequitinhonha (MG), já as crianças indígenas do povo Panará, do Alto do Xingu (MT), brincam na corrida de tora, e os meninos na praia de Tatajuba, no Ceará, brincam fazendo seus próprios barquinhos. Todos esses momentos lúdicos foram registrados pela educadora Renata Meirelles e o documentarista David Reeks para o projeto Território do Brincar, com parceria com o Instituto Alana, escolas parceiras e apoiadores.

Ouvir, registrar e compartilhar os saberes e a cultura infantil é a proposta principal do Território do Brincar. De abril de 2012 a dezembro de 2013 a equipe do projeto percorreu estradas do Brasil para registrar diferentes formas de brincar nas comunidades rurais, indígenas, quilombolas, grandes metrópoles, sertão e litoral. As formas do brincar são registradas em filmes, fotos, textos e áudios. Cada passo foi contado no site dividido nas seguintes seções: projeto, diário de viagem, crianças no Brasil, escolas parceiras, fórum, brincadeiras e mural de notícias.

Renata atua com o tema da criança brasileira há mais de 15 anos e desde 2000 desenvolve diversos projetos com o documentarista David Reeks. A dupla realizou o Projeto BIRA- Brincadeiras Infantis da Região Amazônica. Nesse trabalho, foram percorridas 16 comunidades indígenas e ribeirinhas dos Estados do Amapá, Pará, Amazonas, Roraima e Acre. Formada em educação física, Renata possui mestrado pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo em antropologia do imaginário sobre as brincadeiras da Amazônia.

Dessa forma, o Território do Brincar é uma continuidade do trabalho da dupla sobre pesquisas dos saberes genuínos da criança no brincar. Nessa aventura, a dupla viaja com os dois filhos, que no início tinham dois anos e o outro de quatro, hoje estão com quatro e seis, respectivamente.

Pé na estrada

Antes de iniciar a viagem, Renata explicou que havia feito uma pesquisa prévia sobre o que a criança costuma fazer em cada região visitada. “Mas ninguém sabe dizer o que elas fazem e falam: ah, brincam! E todo mundo fala que as crianças não brincam como antes”. Para mostrar o contrário dessa afirmação, a dupla desenvolveu um roteiro bem diverso cultural e regional.

Também foram feitos contatos com escolas das comunidades para ajudar a contatar as crianças das regiões visitadas, após apresentar o projeto para contar com apoio dos educadores desses espaços. Outra ação é organizar um cinema na praça. De forma gratuita, o evento costuma apresentar de uma forma divertida o que é o Território do Brincar e contar com a colaboração das crianças do local. A dupla também consulta as crianças o que eles querem fazer, mostrar. Já nas cidades maiores, a equipe do projeto acompanha grupos que trabalham com crianças para conseguir essa aproximação.

O brincar de lá e de cá

Entre semelhanças e diferenças, Renata concordou que há uma diferença regional no brincar. Ela observou que as crianças de grandes centros urbanos contam com muito conteúdo, informação e aceleração. “Ela precisa responder por muitas coisas e um tempo muito fragmentado. E ainda precisa responder ao tempo urbano, que é um tempo acelerado”. Uma das coisas que chamou a atenção da pesquisadora foi que elas falam muito durante a brincadeira e elas mudam de brincadeira com bastante frequência. “É uma necessidade de expressão intensa, ela narra a brincadeira o tempo inteiro, sem necessidade de um diálogo”.

Já em comunidades menores, Renata pontuou que foi comum notar a conexão da criança com espaço em que ela vive. No litoral, por exemplo, as crianças brincam com o mar e o mangue. “De modo geral, nesse sentido, elas sabem acompanhar as ondas do mar. Elas brincam bastante de canoas. Lá a criança faz seu brinquedo de forma exata. Se não, a canoa não navega nem funciona. Quando ela faz o brinquedo sabe que tem que funcionar. Brinca de verdade”. Segundo a mestre em antropologia, na antropologia do imaginário foram 13 dias para construir a canoa. “Um brinquedo simples de fazer, mas precisa ser minucioso. É preciso deixar a madeira secar e ir esculpindo aos poucos. Você ter tranquilamente seu tempo de espera, porque a natureza pede esse tempo. Então, o brincar conversa com o meio ambiente”.

Brinquedos e brincadeiras

Até agora o site da iniciativa registra 39 brincadeiras. Amarelinha dos dias da semana, carrinho de lata, pista de tampinhas, balanço de embira, máquina de fazer linguiça, peteca de palha de bananeira, violinha de bambu, chicotinho queimado, carrinho de vara são algumas na lista de brinquedos e brincadeiras.

Com fotos e uma explicação passo a passo, cada brinquedo e brincadeira é apresentado e contextualizado em que local costuma ocorrer, como as crianças costumam brincar, se elas produzem ou não os próprios brinquedos, e como é feito e os materiais utilizados na confecção e até as letras de cantigas.

Escolas parcerias

Além das crianças, o projeto conta com parcerias de seis escolas que acompanhou a caminhada pelo Brasil feita pela equipe do Território do Brincar. Todo mês cada escola tinha um encontro com Renata Meirelles via Skype, em que a pesquisadora selecionava material coletado durante suas viagens e das comunidades que conhecia, para refletir e compartilhar com os grupos de educadores. A ideia era provocar discussões, reflexões e debates com a apresentação da imagens, apresentação de Power Point e vídeos, além dos próprios relatos da educadora

Antes dos encontros, a educadora idealizadora do projeto enviava textos e apresentação antes da conversa com os educadores. “A nossa proposta era colaborar com o conteúdo curricular e até organizar mais tempo para o brincar entre diferentes faixas etárias, misturando turmas, por exemplo”.

A assessora pedagógica da Escola Viverde, Rosane Acedo, formada em história e artes, conta que desde o início acompanharam o projeto. Para ela, a proposta da iniciativa coincide com a da escola e o contato da pesquisa de Renata e David contribuiu para o aprofundamento da reflexão sobre o brincar. “Foi bem interessante esse resgate do brincar de forma mais antropológica possível”.

Segundo Rosane, todos os professores da educação infantil, fundamental e até ensino médio participaram das conversas com Renata e o foco foi escolher a natureza como grande potencial do brincar, já que a escola possui projetos nessa temática.

A assessora comentou ainda que a escola é um mini sítio. “Notamos que temos um reduto da cultura caipira e vamos trabalhar melhor essa ideia, para reunir brincadeiras de sítio. Para isso, demanda mais estudos. Mas a ideia surgiu durante o projeto Território do Brincar”. Ainda disse que gostaria de ter incluído mais os pais nas atividades. “O brincar não quer dizer dar um brinquedo, mas às vezes você possibilitar a criança construir seu próprio brinquedo, ali no processo já é o brincar”.

Já Josca Ailine Baroukh, da comunicação da educação infantil e ensino fundamental da Escola Vera Cruz, comentou que os encontros com Renata foram enriquecedores pela troca de informações e os professores de várias turmas também acompanharam as postagens no blog. “As questões que ela trouxe nos colocou a pensar. O educador é um profissional que precisa refletir o tempo todo”.

Para a psicóloga com pós-graduação em espaço pedagógico, o diferencial desse projeto foi incluir a escola no diálogo com outras culturas. “Olhar para além dos muros da escola já é um valor, por isso aceitamos essa parceria”, afirmou.

Quando questionado sobre o mais aprendeu nessas viagens, Renata responde: “acho que a gente não faz essas coisas para fora, mas para dentro. Diariamente faço uma reflexão de como é estar nesse ambiente, como essas pessoas me devolvem reflexões muito grandes, até no âmbito familiar. O maior presente é voltar e me reavaliar o tempo inteiro: quem sou eu nessa cidade e dentro das possibilidades de relações e nessa construção tão bonita”. Além disso, ela também tem se admirado muito com a presença da mulher nas comunidades. “A força feminina é o que segura o Brasil, são fortes, guerreiras e atuam de forma silenciosa”.

Próximos passos

Após tantas paradas no Brasil, a dupla está editando um longa-metragem sobre a infância no Brasil e duas mini séries sobre o brincar explicadas pelas próprias crianças, que serão comercializadas para canal de televisão. Já o filme está previsto para lançamento no final do segundo semestre.

Além da produção audiovisual, está sendo produzido dois livros sobre o brincar no Brasil para dar continuidade à publicação Giramundo e Outros Brinquedos e Brincadeiras dos Meninos do Brasil, da Terceiro Nome. Essas publicação estão pela Lei Rouanet e necessita de patrocinados para colaborar na elaboração dos livros.

O site do Território do Brincar também será reformulado para incluir as brincadeiras das últimas viagens e reunir toda a produção sobre infância brasileira. Além disso, a equipe do projeto realizará uma exposição itinerante lançada no Conjunto Nacional, em São Paulo, no dia 22 de março até 12 de abril, que depois irá percorrer outros espaços, como centros culturais e escolas.

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