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08
fev-2017

Escolas também são territórios de brincar

Por Carolina Prestes / Território do Brincar

Entre 2012 e 2013, o Projeto Território do Brincar percorreu diversas regiões brasileiras na busca por conhecer e registrar o brincar espontâneo de meninas e meninos brasileiros. Neste tempo de estrada, Renata Meirelles e David Reeks, coordenadores do Projeto, estabeleceram diálogos com seis escolas parceiras, numa troca constante sobre a infância, o brincar e a educação.

Por todas as regiões que passavam, Renata e David organizavam materiais com vídeos, fotos e textos, convidando educadores a observar os gestos da criança e a refletir sobre a essência da infância: será que a escola acolhe as reais necessidades das crianças? Será que é um lugar de escuta sensível para a infância?

Educadores que se envolveram no debate, e tiveram contato com as narrativas registradas pelo Projeto Território do Brincar, afirmam ter vivido uma revolução tanto do olhar, como de suas práticas. Uma revolução vinda a partir do que as crianças nos revelam ao brincar.

O ‘sinal’ foi um ponto comum nas reflexões. “Como podemos organizar a nossa rotina de forma diferente para que o sinal aconteça, mas que o tempo e o espaço da brincadeira não sejam fragmentados? Esse questionamento, de uma das educadoras do Colégio Oswald de Andrade (SP), vale para muitas escolas que optam pela escuta sensível da criança.

O Território do Brincar recebe com frequência relatos de educadores que estão empenhados em repensar a organização dos tempos e espaços da escola e dispostos a acolher a necessidade da brincadeira livre e espontânea.

Este foi o caso da Escola NAU, no Rio de Janeiro. A escola existe há 40 anos e extrapola os próprios muros, levando as crianças para passearem semanalmente em parques, exposições e bibliotecas e convidando-as a se apropriarem dos espaços públicos do entorno. No ano passado, a comunidade escolar revitalizou a pracinha da Urca, com a organização de uma feira de troca de brinquedos.

Lais Fleury, coordenadora do Criança e Natureza e mãe da escola, durante uma conversa com os professores, apresentou a eles os materiais do Território do Brincar, os quais foram disparadores para um profundo debate sobre o brincar e a essência da infância.

A valorização do brincar já é uma preocupação da escola e o próprio projeto político pedagógico contempla tempos largos para que o brincar ocorra livremente: as crianças têm 1h de tempo livre no pátio – e mais meia hora nas salas de aula, para que possam se expressar e brincar com autonomia e liberdade.

Professoras constroem brinquedos durante a semana pedagógica. Foto: Facebook Escola Nau

Professoras da Escola Nau (RJ) constroem brinquedos durante a semana pedagógica | Foto: Facebook Escola Nau

Lais afirma que, após o bate-papo, os professores ficaram ainda mais engajados e comprometidos em olhar com atenção e cuidado para o brincar das crianças e, os ecos desta conversa já podem ser vistos na rotina da escola.

Erika Fadul, coordenadora pedagógica da escola, diz que sempre foi um desafio convencer os pais sobre a centralidade do brincar para o desenvolvimento das crianças: “Alguns pais questionavam o tempo livre, achavam que não estávamos fazendo nada com as crianças. Iniciamos um trabalho para conscientizar a comunidade escolar sobre a importância do brincar. Muitos querem que os filhos aprendam o quanto antes a ler, escrever, mas, com 4, 5 anos, as crianças precisam de outras coisas, principalmente brincar”, afirma Fadul.

Para envolver os pais na discussão, a escola, que a cada semestre escolhe um tema para trabalhar, optou, neste primeiro semestre, por mergulhar no tema ‘brinquedos e brincadeiras tradicionais da infância’.

Na reunião de pais, professores pediram para que cada um compartilhasse suas melhores memórias de infância. Surgiram muitas pérolas e, então, os pais foram convidados a ir à escola uma vez por semana para compartilhar com as crianças suas brincadeiras de infância. Uma oportunidade rica de troca de saberes entre gerações e de ampliação de repertório para todos.

Ainda na busca por fortalecer o olhar sobre a importância do brincar, os professores tiveram, durante a semana pedagógica, dias dedicados a brincadeiras. “Quando vivemos a experiência em nosso corpo, fica mais fácil compreender a real importância do brincar. Vimos sementes brotarem nos educadores, todos ficaram animados. O ano mal começou e já vejo grandes frutos surgindo”, comemora Erika.

É essa a revolução que queremos: uma educação (e um mundo!) que seja capaz de escutar as crianças e atender, com sensibilidade, suas necessidades. A escola também é um território de brincar. Por isso, convidamos todos os educadores e educadoras a descobrirem os quintais de suas escolas e abrirem tempo e espaço para que a potência do brincar seja revelada.

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